Set Expo 2019

Os desafios de criar um podcast no Brasil


Os podcasts entraram definitivamente na vida das pessoas, no radar dos produtores de conteúdo e na agenda dos executivos de marketing. O crescimento deste mercado é exponencial. É um fenômeno global e, mais recentemente, ganhou grande destaque no Brasil nas discussões sobre novidades e oportunidades na mídia. Até a Rede Globo aderiu à tendência ainda no mês de agosto deste ano. Mas, para onde essa tecnologia deve caminhar? Como monetizar em cima deles? Essas perguntas foram tema do terceiro painel de Rádio durante o SET EXPO 2019, realizado no final de agosto, em São Paulo, sob a moderação do Diretor da ZYDigital, Marco Túlio Nascimento.

Um mercado novo

Para começar, foram apresentados dados sobre a evolução da audiência do podcast no mundo. Em pesquisa feita pelo Ibope recentemente, 68% dos entrevistados brasileiros sabem o que é um podcast, contra 70 nos EUA, em comparação com uma pesquisa norte-americana. Por aqui, 40% desse percentual já deu play em um podcast, contra 51% de lá. “Só que esses números não são muito expressivos ainda, porque não existe um comparativo de muitos anos, o podcast não é algo antigo. Temos um mercado constante e crescente”, explicou o moderador. Em pesquisa da CBN – ABPOD 2018, o crescimento do mercado de podcast brasileiro cresceu de 6 produtores em 2004, para 1278 em 2018. E o  número de audiência subiu duas vezes e meia nesse período.

O Diretor Executivo de Jornalismo da Rede CBN, Ricardo Gandour, explicou à platéia que a emissora foi umas das primeiras a empregar a prática do podcast no Brasil, ainda em 2005. àquela época, os boletins de notícias entravam na programação a cada 15 ou 20 minutos, e depois eram editados e disponibilizados para que o ouvinte pudesse ouvi-los a qualquer momento, sem precisar acompanhar a programação do Rádio em tempo real.

“Isso gera hoje cerca de 130 mini produtos carregáveis ou baixáveis que geram cerca de 4,5 mil downloads por dia. Cerca de 80% do nosso conteúdo é on demand”, contou. Os destaques vão para o programa “Panorama CBN e uma serie chamada “Vozes”, ambos com cerca de 80 mil downloads por episódio, mensurados pela base do app. “Eles entraram agora  no Spotify. Embora ainda não tenhamos dados, estamos otimistas pela abrangência da plataforma”, explicou.

Com a entrada da rede Globo no mundo do podcast na semana do evento, Gandur conta que foram detectados aumentos diferentes de downloads na audiência da CBN. “Eu brinquei com o pessoal há alguns anos falando  que quando a Globo entrasse nesse meio ia aumentar o tanto de gente pescando no nosso lago, e isso aconteceu”, disse arrancando risadas da platéia.

“Acho importante lembrar que tudo isso destaca a força dessa mídia que foi decretada como ‘com pouco tempo de vida’, já que havia som e imagem juntos na televisão. Eles diziam: pra que ficar só com o áudio? Só que o áudio tem a possibilidade de fruição sem ser interrompido. Ele desperta uma das características mais em falta na humanidade: a concentração.  Você mergulha naquilo e é muito difícil alguém te interromper. A fidelização é muito grande”, defende.

Quanto aos novos hábitos de consumo, o palestrante lembrou que uma parcela muito jovem da população, sempre conectada na internet por meio dos smartphones, começou a entender que o podcast traz conteúdo atualizado, detalhado e de temáticas diferentes, que podem ser consumidos a qualquer momento do dia, e na rua, a caminho de algum compromisso.”Por isso, chamo a atenção para a gente cuidar dessa identidade de marca. O ouvinte jovem que entra em contato com a nossa emissora a partir de um podcast precisa saber que aquilo vem de uma emissora, e que se ele sintonizar a nossa freqüência, pode entrar uma break news em pouco tempo, com os assuntos mais atuais do dia. O mercado é muito dinâmico e não podemos perder a alternância  de gerações, por isso, temos o desafio de ser interessantes, criativos e impactar a vida do usuário”, finaliza.

Magê Flores, Jornalista da Folha e apresentadora do podcast “Café da Manhã”, seguiu a apresentação contando os desafios de se manter interessante que o impresso pensou até lançar o podcast. “Observamos a tendência lá fora de noticiários terem os seus podcasts e entendemos que essa conveniência do produto se encaixava nas necessidades do meio. Hoje você ouve o podcast quando você não ouvia, como lavando louça, na academia etc, e sobre qualquer tipo de assunto”, sintetiza

No “Café da Manhã”, ela conta que é escolhido um grande tema atual para compor a pauta, e  a partir dali, são apresentados mais de um ponto de vista com detalhes sobre aquela historia.

“E agora estão chegando as smart speakers como interface. Não precisa olhar pra tela do celular e pedir para ouvir alguma coisa, como fazemos hoje com siri. Basta pedir, com voz, de qualquer lugar dentro do alcance da caixinha, enquanto você arruma a casa, por exemplo. A audiência deve crescer ainda mais por conta disso”, acredita a jornalista.

Diferenças de linguagem

Mas qual a diferença da linguagem de um programa de Rádio para um podcast? “Acho que no podcast tem uma sutileza da linguagem, tem uma certa informalidade de conversar com alguém que esta usando o fone pra te ouvir e esta fazendo outras coisas. E tem a semelhança de os dois serem gratuitos, o que ajuda muito. Já o Rádio tem programas, horários, apresentadores e a programação vai mudar se acontecer alguma coisa urgente. O podcast é roteirizado, pensa-se um dia antes, no nosso caso”, explica Magê Flores. Para Rodrigo Tigre, Country Manager na RedMas  e sócio-diretor da Audio.ad , as pessoas que ouvem Rádio ou podcast buscam se entreter e se informar ao mesmo tempo. “Só que percebemos que hoje as pessoas preferem programas de 15 minutos com dicas rápidas e conteúdos objetivos. Alegam que não dá para ficar focado por muito tempo. O Rádio em si tem programa com duração de até 1h, e isso não é tão atrativo para esse público”, explica.

E como monetizar?

Com toda a atenção voltada para o conteúdo, criação de temáticas e objetividade, como monetizar em um programa que visa informar de maneira rápida e sem interrupção ao ouvinte?

Por enquanto, o acesso aos podcasts se dá principalmente por celular, por meio do Youtube e Spotify, “mas aposto que daqui há um ano isso vai ser bem diferente porque o Google está investindo nisso e já tem uma plataforma. Com certeza vão surgir novas maneiras de ouvir”, analisa Rodrigo Tigre.

Ele explica que a missão da marca dentro do podcast é não esquecer que a sua mensagem seja ouvida. “O podcast nada mais é que uma tecnologia que faz ponte com o conteúdo”, resume.

“O desafio da publicidade existe porque o impacto dessa mídia é offline. Uma boa alternativa é o pre roll, que são 15 a 30 segundos antes do programa com oferecimento”, explica. Outra forma de usar a publicidade é dentro do programa, com o testemunho gravado na voz do apresentador contando como usou um produto ou serviço, por exemplo.

Por fim, a publicidade via brandend content, que sãoos programas patrocinados, ou programas temáticos, como a Caixa Econômica fez com o programa “O papel do Banco no crescimento do seu negócio”.  

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